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EX-HIBIT

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Francisco Judas

Um bloco e um lápis, foi o que Lucrécia jogou para o alto dizendo: ridículo!

Se referia ao gesto do marido, Matheus, ao tentar, num súbito desespero, coagir a mulher a tomar uma bomba hormonal.  Num ímpeto, o homem pegou um papel e afirmou que escreveria um documento onde ela, a mulher, deveria assinar, se responsabilizando pelo acidente que acabara de acontecer.  Lucrécia estava em período fértil, e Matheus guardara dez dias de porra no saco, justificando-se com um pseudo-treinamento pró-kundalínico que havia aprendido com seu mais novo grande admirador, o Plínio.

Plínio e Matheus mantinham estreitas relações afetivas e afetuosas desde que o jovem artista se mudou para a grande casa.  Nela moravam outros artistas homens heteros.  Plínio era pai solteiro e procurava como ele só resolver uma questão de moradia que perseguia a ele e a sua pequena menina, Mariélli.  Apesar de boa família, estrutura, e educação, Plínio no auge dos vinte e tantos anos não queria abrir mão de sua vida de star da comunidade.  Queria mais, queria não só ser artista; queria morar com os artistas.  Queria ser como os artistas.  Em princípio ele e a menina seriam substitutos provisórios de outro morador que estava ausente.  Ocuparam este quarto.  Porém, dentro da soberba sabedoria da idade, achou que seria ótimo para sua vida fazer um puxadinho na casa grande dos artistas.  A interação entre ele e Matheus foi deveras bela.  Não queriam mais se separar.  Ajeita-se aí no cantinho externo da casa, pai e filha, mantem-se a felicidade plena do lar, e acima de tudo, dos dois homens.

Lucrécia ficou profundamente incomodada com o tratamento dado à pequena criança, que em sua opinião, mereceria lugar melhor pra viver, sobretudo levando em conta as reais condições da família em questão.  Reivindicou que não se fizesse o puxadinho, primeiramente.  Não, não se tratava de ciúme, veja bem.  Se tratava de um apego pelo espaço e pela história.  Em seguida percebeu que, puxando pela razão, uma vez que puxadinho seria construído quer queira quer não, solicitou uma melhor consideração à criança.  Que ao menos fosse colocada em algum aposento interno.  Estruturalmente a casa comportava.  Haviam quartos semi-vagos.  Um deles, por exemplo, pertencia por direito ao Francisco Judas.  Este não habitava a casa, nem nos finais de semana.  Vivia com a mulher e a enteada, sem assumir nenhuma das duas.  Uma vez chegou na grande casa dizendo: que façamos de tudo para ajudar o nosso amigo nesse momento de dificuldade, (conquanto que seu quarto permanecesse vazio caso ele necessitasse).  Mas sim, era a favor da construção do puxadinho e do completo acolhimento do pai solteiro com sua pequena nos fundos da varanda atormentada.  Plínio obviamente pouco se importava se sua movimentação em torno da casa alterava a vida do casal Matheus e Lucrécia – a história causou mais de uma indisposição conjugal.  Mas afinal, claro, com toda a educação que teve, ele não queria impor nada a ninguém.

Eis que Lucrécia constatou sua condição de minoria, de voto vencido.  Afinal, viviam em uma legítima democracia.  Tudo seria feito, puxadinho, Plínio, criança, a despeito de sua opinião, sem qual-quer consideração por qual-quer um de seus argumentos.  Ali ela não apitava nada.  Ali Matheus lhe disse: moras aqui de favor, não tens opinião nenhuma para dar!  Não se fala mais nesse assunto.

Lucrécia então não tomou a pílula.

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peito líquido

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Equidade

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Carne Moída

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sounding

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coração congelado

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daily routine

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