art(e) ?

Herpes Zoster

jantar:

  • frango assado;
  • macarrão;
  • purê de batata baroa;
  • maionese de batata;
  • suco de soja;
  • patético.

café da manhã:

  • não há açúçar, só adoçante;
  • não há leite de vaca, só de soja;
  • algumas frutas, mamão, activia;
  • não há pão, só bolachas de água e sal;
  • não há manteiga, só margarina e geleia de goiaba;
  •  há granola, sucrilhos.

À noite o pai me disse:

– Nunca! estive tão gordo assim na vida.

– Mas ele não comia direito.  Jantávamos à noite (acrescentou ela).

– A comida da empresa era ruim, comia pouco.  Aí chegava em casa às oito da noite morrendo de fome, e me atirava (saía de casa às seis da manhã).

O tempo está demasiado feio.  Cinza escuro e chuvoso.  No meio da noite acordei com o barulho da chuva e dos trovões.  Tive um sonho muito estranho.  Meus amigos de Mariana mostravam-me coisas.  Dormi na cama da velha.  Uma cama com controle remoto, onde a dita cuja ficara doente por muitos anos antes de morrer, aos cento e tantos.  Bartira fez questão de resgatar o móvel.  Sua tia não haveria de dar aquela cama, com controle remoto, a qualquer pessoa.  Assim, se alguém ficar doente, já tem cama!

Logo que chegamos a casa, Gustavo e Luís, filho de Bartira, foram convocados ao quarto de hóspedes “executar uma tarefa de homens”.  Aproveitei os poucos minutos a sós com o pai para … vê-lo, trocar as primeiras ideias.  Só se falou de doença.  Enquanto isso, Gustavo e Luís ajeitavam a tal cama da tal velha, onde eu haveria de passar uma noite muito mal dormida.

Estava muito ocupada no sonho, tendo que dar atenção a várias coisas, pessoas, projetos, tudo ao mesmo tempo.  O Martinho enviava-me um projeto sobre algo complexo e conceitual.  As imagens discorriam sobre um grande falo, que praticamente tinha vida própria.  O pinto tocava-lhe a face dando-lhe prazer, arrancando-lhe um pequeno suspiro do meio da fala discursiva.

Em paralelo, eu caminhava pelas ruas de São Chico com minha amiga de infância, a Carol.  Fazia sol e calor, e eu deveria voltar, pois estava suada e tinha compromisso.  Ao chegar a casa no sonho, lotada de estudantes amigos, olhava-me no espelho e via minha pele do peito, ombros e braços toda vermelha, queimada do sol.  Meu corpo estava impressionantemente musculoso e forte.  Eu parecia uma estátua de Rodin.  Tentava tomar um banho, mas havia muitas pessoas no ambiente.  Marco Aurélio também me enviava um projeto de finalização de alguma coisa, tipo aula, trabalho, não sei bem.  Sentei-me ao lado de Renata.  Ela estava muito chateada.  Fazia tempo que não nos víamos.  Falava de como seu namorado de longa data, o Fernando, havia lhe traído.

– Com quem, Rê?

– Com aquela ali, e apontava com a cabeça para o outro lado da sala.

Lá se encontrava sentada e muito séria, como sempre, Cíntia.  Cíntia faleceu há uns três anos, tinha uma válvula artificial no coração.  Fez a troca, tal qual deveria fazer de 10 em 10 anos.  Pegou uma infecção hospitalar.  Durante uma de suas altas, retornou às repúblicas estudantis, famosas Moitas, e viveu.  Fumou, bebeu, trepou.  Depois morreu.

Bem no meio do sonho, Fernando havia traído Rê com Cíntia.  Fernando traíra Rê não só com Cíntia, mas também com várias outras garotinhas.  E eu, por um instante, confundi Fernando com Edgar, o xamã garanhão.  Mas enfim, no meio da conversa, meu celular tocou.  Olhei no visor, era a chamada de alguém desconhecido.  Quando atendi, voltei de supetão à realidade.  Meu celular de verdade estava despertando.

Já eram quinze para as sete da manhã.  O ônibus para Rio Grande, casa de minha avó, saía às oito.  Meu pai havia comprado duas passagens, uma para mim e uma para ele.  Decidiu não mais viajar por conta das dores da herpes.  Na noite anterior, momentos antes de sair com Gustavo para tomar uma cerveja, Bartira falou enfaticamente sua opinião acerca da viagem de meu pai.  Era veementemente contra.

– Mostra Ale, as feridas!

– Não! disse eu.  São justamente as feridas, que com seus líquidos transmitem a doença.  Me poupe.  Ele é quem sente a dor, ele é que sabe se deve ou não viajar!

Gustavo disse que fui dura demais.  Que deu a impressão que não estava nem aí para as dores ou para a doença de meu pai.  Sendo que não.  O que eu disse, ou quis dizer, é que ele tem seu próprio juízo.  Na minha opinião, talvez pudesse ser bom para meu pai sair daquela casa e passar algumas horinhas com as verdadeiras mulheres de sua vida: sua mãe e sua filha.  Mas a razão ponderou com seu sábio martelo que seria uma má ideia viajar, por conta do desconforto no ônibus.  Ele também não tinha conseguido dormir à noite.

A velha, dona da cama, coincidentemente também teve Herpes Zoster, não nas costas, mas na face.  O que será mais que a velha teve de enfermidade?  Quem cuidou da velha por muitos anos, por todos os anos, foi Bartira, sua neta.  Esta agora passou a cuidar de meu pai.  Vejo-o como o enfermo a substituir o lugar da velha naquela cama de controle remoto.  Bartira perdeu a filha, no parto da netinha.  A pequenina vive, muito bem.  Segundo Bartira, chama meu pai de vô.  Meu pai ainda não tem netos.  Há uns tempos atrás ele teve uma crise séria de epilepsia.  Parece que tinha fumado uns baseadinhos, e isso teria desencadeado o retorno das crises.  Meu pai teve uma crise epilética antes de entrar na faculdade.  Mas se tratou, e nunca mais voltou a ter.  Só depois de velho; depois de Bartira.

No meio desta viagem, dentro do ônibus rumo a Rio Grande, o tempo clareia um pouco.  Já não mais chove, há mais luz no cinza do céu.  A terra dos pampas, plana, fria.

One response

  1. perturbador

    February 10, 2012 at 11:32 pm

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