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Novo Membro

-Nunca vou me esquecer do seu nome.  É o mesmo da minha cadela.

-Ah, que delicado!

-Mas não é por sua causa.  É por causa da Julia Roberts.

Passados dois segundos de silêncio, Gustavo soltou uma forte gargalhada, enrubescendo sua face, e deixando Julia ainda mais perplexa.  Ela não sabia se seu companheiro havia de fato achado graça da piada do primo, ou se ria por puro nervosismo.

O outro casal que estava na mesa sem face ficou.  O sujeitinho logo desencostou da lateral da cadeira de Julia e seguiu seu destino bêbado no meio do restaurante.  Em meio a tantos parentes, brilhos, acetinados, lantejoulas, saltos, laquês, o desconforto tomava conta da atmosfera, pelo menos aos olhos de Julia.

Esperou alguns minutos, para não dar muito na telha, pediu licença ao casal que se esforçava em fingir situação agradável, do bem estar da família reunida, levantou-se e foi ao banheiro.  Deu a desculpa de vestir a meia-calça, pois junto com a noite, também chegara o frio.  Trancou-se na cabine.  Encostou-se contra a enclausurada parede entre o vaso e a porta.  Respirou fundo.  Desceu do salto.  Ergueu o rosto.  Arregalou bem os olhos.  Sentiu o choro raivoso subir rasgando quente por sua garganta.  Seus olhos iniciaram lacrimejar.  Respirou mais fundo.  O choro foi voltando devagar, dissolvendo-se pelo interior das maçãs do rosto, sem deixar a zona da cabeça.  A qualquer momento poderia vir à tona.  A situação tinha se tornado limite.

Enquanto estavam na van, ainda a caminho do restaurante, o primo bêbado não parava com as brincadeiras.  Na realidade, o assédio durara o dia todo.  Uma tal conversinha de que Julia teria de aturar as brincadeiras para entrar na família.  O bom e velho papo furado, desculpa do vem aqui meu bem que eu quero tirar uma casquinha.  Passa o braço por sobre os ombros e diz: você não me quer? Hahahahaha, quase todos riem.  A esposa parece não se importar, ainda pergunta ao marido: Quer vir sentar ao lado de Julia? Ele aparece na sala, abre os braços esperando um abraço que não acontece.  Passa a mão no queixinho e chama-a de meu bem.  Até este ponto, Julia somente conseguia sentir as palavras ríspidas escalando a garganta, formigando a língua até chegar na ponta:

-Escuta aqui, se vocês têm brincadeirinhas com Gustavo, fiquem à vontade!  Passem a mão uns nos outros, assediem, sentem no colo, mas não me metam nisso.  Não gosto deste tipo de brincadeira.  Eu não vim de longe para ser tratada como uma putinha por um velho idiota!

Mas as palavras, ao chegarem na ponta da língua, foram suspensas, travadas, e voltaram escorrendo pelo caminho de volta, língua, nó na garganta, peito cheio.  Nem riso amarelo saiu desta vez.

Voltando ao episódio canil do restaurante, ao voltar do banheiro, Gustavo chamou Julia para tirar retratos.  O primo bêbado se aproximou novamente, perguntando se poderia continuar com o assédio.  Julia respondeu que não.  E completou:

– Se você quiser continuar a ser deselegante comigo, não tem problema.  Eu simplesmente vou ignora-lo a partir de agora.  Só peço uma única gentileza: Não toca em mim. Não encosta no meu corpo.

O sujeito ouviu bem ouvido, e acalmou as brincadeiras pelo resto da noite.  Do restaurante passaram no hotel.  As madames mereciam um momento de trégua da tortura, trocariam seus altíssimos sapatos para poderem nivelar-se ao chão e, finalmente, serem felizes no baile (de gala).  Julia vestiu seu all star, e ainda encontrou pelo caminho um comentário surpreso da sogra.  Chegando ao baile, empenhou-se em não se deixar abalar, pediu auxílio aos amigos ciganos para a bebida, e enfiou-se no fundo de uma taça plástica com cerveja gelada.  A banda era meia-boca, mas estava valendo.  Foi superficialmente feliz e dançou a noite inteira.  Em seu espaço, sozinha, vez em quando brincava bêbada com as amigas da formanda.  Finalmente seu sorriso aflorava, seu óculos já se encontrava no bolso do blazer, e seu mundo se reduzia ao raio de um metro de distância.

No final da noite, quando já não mais havia cerveja no balde de gelo, o primo bêbado se aproximou, disposto a servir sua taça.  Julia não se opôs à oferta da bebida.  Ele então se esforçou em tocar de leve sua mão, aproximou-se de seu rosto e disse em tom grave, meio manhoso:

-Não briga comigo.  Eu gosto de ti.

Como num golpeio de vento, Julia virou-se de costas, deixando somente diante do outro a imagem da nuca de símbolos serpentinos, vermelho e negro.

One response

  1. Ah!

    August 22, 2012 at 8:41 pm

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